A história da ACES: vinte e cinco anos transformando cidades em motores do esporte
Uma ideia concebida às duas da manhã
Era uma noite de 1999, em um hotel no centro de Madri. Já passava das duas da manhã quando Gian Francesco Lupattelli — empresário italiano que naquele dia havia se reunido com o prefeito José María Álvarez del Manzano — foi atingido pela pergunta que mudaria seu rumo e daria forma a um movimento global.
"Se existe uma Capital Europeia da Cultura, por que não uma Capital Europeia do Esporte?"
O prefeito havia lhe pedido algo concreto: uma iniciativa que diferenciasse a candidatura olímpica de Madri 2012 e demonstrasse que a cidade espanhola era uma potência esportiva real — o Instituto Municipal de Esportes já contava com mais de meio milhão de usuários ativos. O que Lupattelli trouxe de volta no dia seguinte foi muito mais do que uma iniciativa pontual. Era a semente de uma associação, de uma metodologia e de uma rede que, um quarto de século depois, alcançaria mais de seis mil cidades em mais de cinquenta países e quatro continentes.
Naquela mesma semana, Lupattelli fundou em Bruxelas a Association of Capitals and Cities of Sport — hoje conhecida simplesmente como ACES.
A primeira Capital: Madri 2001
A ideia passou rapidamente do conceito à realidade. Em 2001, Madri se tornou oficialmente a primeira European Capital of Sport da história. Havia competido com Lisboa pelo título — e havia vencido.
Para Madri, a designação não foi um troféu decorativo. Significou a construção de novas instalações esportivas, um aumento documentado na participação cidadã em atividades físicas e um argumento de peso na sala onde o Comitê Olímpico Internacional — então presidido por Juan Antonio Samaranch — avaliava candidaturas olímpicas. Madri chegaria às votações finais do COI, competindo contra Paris, Nova York e Londres. Os Jogos foram para outro lugar, mas a designação como Capital do Esporte havia cumprido sua função catalisadora.
E o mais importante: provou que o modelo funcionava. Outras cidades tomaram nota.
A expansão por níveis
Cidades de toda a Europa começaram a se candidatar. Mas logo ficou claro que o modelo de "Capital do Esporte" servia apenas a um punhado de grandes centros urbanos. Ficavam de fora cidades médias, pequenos municípios, comunidades rurais — todos lugares que também mereciam reconhecimento pelo seu trabalho esportivo. Lupattelli e a equipe da ACES decidiram crescer para baixo.
Em 2007 foi criada a categoria European City of Sport, aberta a municípios entre 25.000 e 500.000 habitantes. Boadilla del Monte e Palermo receberam os primeiros títulos. Era a formalização de um fenômeno que já vinha acontecendo: o esporte municipal havia superado a dimensão das grandes capitais para se tornar motor de desenvolvimento em cidades médias.
Três anos depois, em 2010, chegou a categoria European Town of Sport para municípios com menos de 25.000 habitantes. Robledo de Chavela na Espanha, Busca e Loano na Itália foram os pioneiros. Pela primeira vez, uma cidade de cinco mil habitantes podia exibir em sua fachada o mesmo distintivo institucional de Madri ou Istambul.
Em 2012, a Ilha de Man recebeu a primeira European Community of Sport — uma categoria pensada para conjuntos de municípios, condados ou agrupamentos territoriais que compartilham uma estratégia esportiva comum. A categoria seria consolidada formalmente em 2014.
Mais tarde chegariam as Regiões (Andaluzia foi a primeira, em 2021), as Ilhas (Rab na Croácia, também em 2021), os Resorts turísticos (Albena na Bulgária, 2019) e as regiões euro-mediterrâneas (Laayoune-Sakia El Hamra no Marrocos, 2021).
Cada nova categoria respondia a uma pergunta concreta: como reconhecemos institucionalmente o trabalho esportivo de territórios que não cabem nas caixas tradicionais?
O reconhecimento da União Europeia
Em 2007, a Comissão Europeia publicou o Livro Branco do Esporte, documento fundante da política pública europeia. O artigo 50 desse livro contém uma frase que mudaria definitivamente o status institucional da ACES:
"A Comissão também buscará promover uma maior visibilidade europeia para os eventos esportivos. A Comissão apoia o desenvolvimento adicional da iniciativa Capitais Europeias do Esporte."
A ACES Europe se tornou assim a única organização do setor explicitamente reconhecida em um documento oficial da União Europeia. Desde então, a ACES trabalha regularmente com a Comissão, o Parlamento e outras instituições comunitárias. Sua sede em Bruxelas — em pleno bairro europeu, na Rond Point Robert Schuman 6 — não é por acaso.
A European Week of Sport: a grande parceria com Bruxelas
Em 2015, sob o impulso da Comissária Europeia para Educação, Cultura, Juventude e Esporte Androulla Vassiliou, a Comissão Europeia lançou a European Week of Sport (EWoS). Era uma resposta direta a um Eurobarômetro que havia revelado que quase sessenta por cento dos cidadãos europeus nunca — ou quase nunca — praticavam atividade física. A crise de inatividade física havia se tornado uma emergência continental de saúde pública.
A ACES Europe foi parceira oficial desde a primeira edição, e tem sido em todas as edições seguintes. A cerimônia anual dos #BeActive Awards, organizada pela Comissão Europeia, é realizada habitualmente na European Capital of Sport do ano em curso — Lisboa em 2021, Gênova em 2024, Tallinn em 2025.
Os números do crescimento da EWoS são impactantes. Em sua primeira edição somou cinco milhões de participantes e sete mil eventos. Em 2018 já eram doze milhões de participantes e quase cinquenta mil eventos. Em 2023 superou os trinta e sete mil eventos em quarenta países. O total acumulado entre 2015 e 2025 supera os cento e dezoito milhões de participantes em mais de quatrocentas e trinta e três mil atividades.
A ACES não apenas coordena a presença das cidades premiadas nesses eventos: também acompanha institucionalmente a EWoS desde o primeiro dia.
A internacionalização: nasce a ACES América
Após quase duas décadas consolidando o modelo na Europa, a ACES deu o salto. Em 2018 anunciou a primeira convocação da categoria World Capital of Sport, aberta a cidades de qualquer continente.
Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, se tornou em 2019 a primeira World Capital of Sport da história. Naquele mesmo ano, Santiago de Cali recebeu o primeiro título de American Capital of Sport, e a ACES América nasceu formalmente como filial continental, com sede em Cali.
A ACES América opera com autonomia operacional, mas dentro do mesmo marco institucional da ACES Europe. Gerencia os reconhecimentos no continente americano: American Capital of Sport (cinco cidades até 2026), American City of Sport, American Town of Sport, American Region of Sport. Sua abrangência vai da Argentina à Costa Rica, do Brasil ao México.
Em 2020, a mexicana Guadalajara se tornou a primeira cidade americana a ser World Capital of Sport. O mandato foi estendido até 2021 devido à pandemia. Era a prova de que o modelo podia atravessar oceanos sem perder sua essência.
Parceria com a UNESCO
Naquele mesmo ano de 2020, a ACES Europe foi reconhecida formalmente como parceira oficial da UNESCO, somando-se ao Plano de Ação Kazan que a organização havia aprovado em 2017 como roteiro global para a política esportiva pública.
A relação com a UNESCO se materializou em projetos concretos. A ACES desenvolve um policy paper para a UNESCO sobre políticas esportivas inclusivas, contribuiu para a Rede D+D Cities (Esporte e Desenvolvimento) na América Latina, e participa habitualmente de mesas técnicas sobre indicadores de impacto do esporte municipal.
A Semana Americana do Esporte
Inspirada no sucesso da EWoS europeia, a ACES América lançou em 2023 a primeira edição da Semana Americana do Esporte (SAD), de 23 a 30 de setembro. A iniciativa nasceu com forte respaldo institucional: Organização dos Estados Americanos, Conselho Americano do Esporte, Conselho Ibero-Americano do Esporte, UN Tourism, UNESCO, federações nacionais de municípios e Rede de Ciclovias Recreativas das Américas.
O crescimento da SAD foi vertiginoso. Em 2023 somou treze países, quarenta e uma cidades, trezentos e vinte eventos e dois milhões de participantes. Em 2024 já eram sessenta e quatro cidades e cinco milhões de participantes. A edição de 2025, com Zapopan (México) como cidade anfitriã inaugural, atingiu noventa e uma cidades, quatro mil quinhentos e quarenta e seis eventos e um recorde histórico de oito milhões cento e setenta mil participantes.
A SAD não é uma réplica da EWoS. É sua irmã americana, com identidade própria, calendário próprio e aliados próprios.
As novas categorias temáticas
Entre 2020 e 2025, a ACES criou uma série de categorias temáticas que reconhecem formas mais específicas de excelência esportiva. Dakhla (Marrocos) se tornou a primeira Euro-Mediterranean City of Sport em 2020. Alanya (Turquia) recebeu em 2024 a primeira Mediterranean Capital of Sport. Manchester naquele mesmo ano foi declarada a primeira European Capital of Cycling. Alhaurín de la Torre (Espanha) se tornou a primeira European Capital for Integration and Volunteering, reconhecendo o esporte como ferramenta de inclusão social.
Quelimane (Moçambique) se tornou em 2024 a primeira African City of Sport, marcando a entrada formal do modelo ACES no continente africano. E em 2025, Erzurum (Turquia) recebeu a primeira European Capital of Winter Sports, reconhecendo a especialização em esportes de neve e gelo.
O Mês da Atividade Física
Todo 6 de abril se celebra o Dia Mundial da Atividade Física, institucionalizado pela Organização Mundial da Saúde em 2002. A origem desta efeméride não está em Genebra nem em Bruxelas: está em São Paulo, Brasil. Em 1996, o programa pioneiro Agita São Paulo, criado pelo Centro de Estudos do Laboratório de Aptidão Física (CELAFISCS) sob a liderança do doutor Victor Matsudo, havia demonstrado que era possível mobilizar milhões de pessoas para a atividade física através de campanhas municipais coordenadas.
Abril é desde então, em muitos países da América e da Europa, o Mês da Atividade Física, do Esporte e do Lazer para o Desenvolvimento e a Paz. A ACES integra esta celebração em sua agenda institucional anual, junto à SAD (setembro) e à EWoS (setembro).
A rede hoje
Hoje, a ACES é uma rede que supera as seis mil cidades premiadas em mais de cinco décadas de atividade contínua de suas categorias. Está presente em mais de cinquenta países e em quatro continentes: Europa, América, África e Ásia. Três sedes operacionais coordenam o trabalho: a sede europeia em Bruxelas, a sede americana em Santiago de Cali e a sede italiana em Gênova, cidade onde reside o fundador.
A ACES é entidade reconhecida pela Comissão Europeia (Livro Branco do Esporte, artigo 50, 2007), pela UNESCO (parceria oficial desde 2020), pelo programa Erasmus+ Sport, pela UCLG (Cidades e Governos Locais Unidos), pela Organização dos Estados Americanos, pelo Conselho Americano do Esporte e pelo Conselho Ibero-Americano do Esporte.
Além dos prêmios, a ACES desenvolve projetos institucionais de fundo: um policy paper para a UNESCO sobre políticas esportivas inclusivas, um decálogo apresentado à OEA sobre políticas esportivas municipais nas Américas, a Rede D+D Cities na América Latina, o EUAPPTIVE Project (Erasmus+, liderado pelo Sport Innovation Hub de Gijón com parceiros da Dinamarca, Portugal e Espanha) e o European Sport and Healthy Company Award, entregue anualmente no Parlamento Europeu de Bruxelas em parceria com a DCH (Organização Internacional de Diretivos de Capital Humano) desde 2016.
O impacto verificado
Os números por trás dos reconhecimentos não são simbólicos. A Andaluzia, primeira European Region of Sport em 2021, gerou um impacto econômico documentado de cento e cinquenta milhões de euros. Marselha, European Capital of Sport 2017, atraiu vinte milhões de euros de investimento público adicional. O Piemonte, European Region of Sport 2022, multiplicou por sete vírgula cinco vezes seu investimento regional em esporte.
Cali, primeira American Capital of Sport, registrou um aumento de dez pontos percentuais na participação cidadã em esportes. Antuérpia, European Capital of Sport 2013, somou dez por cento a mais de pessoas ativas através de um calendário de trezentos e sessenta e cinco eventos esportivos em um único ano. Glasgow — única cidade duplamente premiada como European Capital of Sport (2003 e 2023) — introduziu as chamadas "prescrições de movimento" para idosos, com redução documentada de custos de saúde reinvestidos diretamente em instalações esportivas municipais.
Olhando para o futuro
A ACES caminha para os próximos anos com um horizonte expansivo. Após Guadalajara, primeira World Capital of Sport do continente americano em 2020-2021, Buenos Aires será em 2027 a primeira World Capital sul-americana. Porto-Gaia, em Portugal, será em 2028 a primeira World Capital of Sport designada em formato dual de cidades irmãs, separadas fisicamente pelo rio Douro e unidas sob um único título.
As próximas fronteiras estão na Oceania, com sondagens preliminares na Austrália e na Nova Zelândia, e na África, onde após a designação de Quelimane se trabalha em um modelo africano sustentável que respeite as particularidades do continente. A rede de cidades continua crescendo, as alianças institucionais se aprofundam, e a conversa sobre o esporte municipal como ferramenta de transformação social atravessa fronteiras linguísticas, climáticas e políticas.
Como disse Nelson Mandela — uma citação que a ACES recupera com frequência institucional:
"O esporte tem o poder de mudar o mundo. Tem o poder de inspirar. Tem o poder de unir as pessoas de um jeito que poucas coisas conseguem."
Vinte e cinco anos depois daquela noite em Madri, a pergunta que Lupattelli se fez às duas da manhã ainda tem resposta. E a resposta segue sendo: sim. Seis mil cidades, em cinquenta países e quatro continentes, comprovam.
Vinte e cinco anos em uma linha
Os marcos essenciais da trajetória institucional da ACES, de 1999 até hoje.